
A sustentabilidade, o investimento responsável e o passivo
Nos últimos quinze anos trabalhei como gestor de fundos de investimento responsável e fui responsável pela implementação de uma metodologia de quantificação de questões ambientais, sociais e de governança corporativa em uma das maiores gestoras de recursos da América Latina.
Neste caminho me deparei com inúmeras questões que vão desde o não entendimento do tema, muitas vezes confundindo-o com trabalho filantrópico até a utilização do mesmo como instrumento de marketing.
Vejo nestes anos diversos profissionais da área debatendo como aprimorar os relatórios de sustentabilidade das empresas, como incentivar o mercado de títulos verdes e como fazer os gestores introduzirem o tema nos seus processos decisórios de investimentos através da regulamentação do mercado.
Do lado das empresas, muitas delas não têm um entendimento claro do tema e seus relatórios são meras formalidades descritas de forma burocrática e sem objetivo nenhum. O investidor responsável não está interessado em saber se a empresa mantém um organização não governamental que se dedica à educação infantil ou a educação ambiental, se esta contribuição não tiver um objetivo direto ligado as atividades da mesma. O investidor responsável está interessado em saber quanto a empresa investiu num sistema de redução de consumo de utilidades, e que este sistema promoverá a economia de milhões de reais com a redução do consumo. Ou mesmo esta interessado em saber que a empresa mantém uma entidade de educação infantil, com objetivo de formar mão de obra especializada que será aproveitada em suas unidades, o que reduzirá o turn over atual e com isso economizará milhões de reais em treinamento, além de proporcionar melhor qualidade de vida a esta população, através do incremento da renda média per capita.
Do lado do mercado de títulos verdes, vimos diversas entidades regulando este mercado, criando manuais de orientação de como emitir um título e ao contrário do que vemos no mercado internacional, onde estes títulos crescem a taxas vertiginosas, no mercado brasileiro tivemos a emissão de dois títulos verdes, muito mais como instrumento de marketing para as empresas emissoras. Simplesmente porque não há demanda por estes títulos.
Já do ponto de vista dos gestores de ativos, os poucos que utilizam o tema nos seus processos de decisão de investimentos, o fazem também por questões mercadológicas do que por convicção, mesmo por que pouquíssimas são gestoras independentes, que não tenham conflitos de interesse com as demais atividades bancarias da organização da qual fazem parte.
Por mais que a regulamentação passe a exigir a introdução do tema nos processos decisórios, teremos sempre aqueles gestores que farão tudo como a legislação obriga, mas apenas de forma burocrática.
Muito se discute se o
Investimento responsável gera “alpha” e nos meus quinze anos como gestor de fundos de investimento responsável pude constatar que estes fundos renderam 2 a 3 vezes o retorno dos fundos tradicionais e a questão é muito simples, as empresas que são sócio responsáveis o são porque possuem um sistema de governança corporativa robusto e estas por possuírem uma melhor governança apresentam retornos superiores às demais empresas.
A questão já superou este dilema se este tipo de investimento gera mais retorno ou não que os investimentos tradicionais. A questão é que queremos obter retorno investindo em empresas que exercem suas atividades do modo correto. Não queremos obter retorno investindo em empresas que destroem cidades com rompimento de barragens, com empresas estatais que sofrem ingerência política que levam a esquemas de corrupção nas suas atividades ou empresas corruptoras que tentam burlar fiscalização sanitária, por exemplo.
Na minha nova atividade como consultor fiz muitas reuniões com gestores de recursos, poucos conhecem profundamente o tema mas não se motivam justamente porque não há esta cobrança por parte do passivo e eles se questionam porque eu vou fazer se a minha concorrência não faz. Outros poucos são simpatizantes mas não se motivam por questões orçamentárias e a grande maioria pergunta o que eu vou fazer com isso.
O problema ou a solução está no passivo. Enquanto o investidor final não for convencido do seu papel neste processo, passaremos a vida inteira discutindo o tema.
Enquanto o contribuinte de um fundo de previdência não tiver esta consciência e não questionar o seu gestor de recursos como e onde ele investe a sua poupança, continuaremos neste dilema. Justamente os fundos de previdência com objetivos de longo prazo deveriam estar atentos a estes temas, mas são os que mais fazem cobranças de curto prazo a seus gestores.
Nos últimos anos temos visto vários fundos de pensão estatais com problemas atuariais, seja por questões
de corrupção, seja por investimentos mal sucedidos. E a pergunta que fica é porque os contribuintes destes planos de previdência não se mobilizam e não pedem reparação por parte dos gestores destes fundos?
Outro segmento importante para mudar este cenário é o investidor private, que possui grande poder de barganha, dado os montantes investidos. Porque estes investidores, mais qualificados e mais bem assessorados, não exercem mais influência junto a seus gestores para modificar este quadro?
Duas tendências devem modificar este cenário: a geração millennium e o movimento de empoderamento das mulheres. Estas populações que assumirão nos próximos anos posições de liderança dão a estes temas muito mais importância. A conferir.


