
O real significado dos juros baixos – Justificam ou não a alta da Bolsa
Quando a Bolha Imobiliária e acionária do Japão, que durou 5 anos, estourou em novembro de 1991, a taxa de juros do Banco do Japão era 5%a.a..
Com a subsequente crise, as taxas caíram rapidamente até chegarem em 0,5%a.a. em 1995, não se recuperando até o presente momento. Isso significa que o Japão está há aproximadamente 30 anos com taxa de juros quase zerada, o que não impediu o país de ter o pior desempenho econômico de sua história nos 20 anos que seguiram 1991, e de apresentar apenas uma pequena recuperação nos últimos 5 anos por conta do bombardeio de quantitative easing do Bank of Japan, que hoje possui 75% dos ETFs do país.
Qual a lição? A lição é que o Nikkei 225, o principal índice acionário do Japão, que havia atingido 24.000 pontos em janeiro de 1991 só voltou a este patamar recentemente, chegando abaixo de 8.000 pontos por duas vezes: em 2003 e em 2009, quase 20 anos depois do recorde de alta. E mais, o mercado imobiliário ainda não voltou aos níveis de 1991.
Portanto, a lição é que preços de ativos têm correlação de longo prazo com o desempenho da economia e dos lucros e não com juros baixos, que podem caracterizar a famosa armadilha da liquidez de Keynes (ninguém investe ou consome pois apesar dos juros baixos a eficiência marginal do capital é menor ainda por falta de demanda e expectativa de deflação).
Os outros países desenvolvidos passaram por situação similar em 2008 e 2009. A reação dos bancos centrais, especialmente o FED, foi mais rápida baixando rapidamente os juros para zero e operando um agressivo Q.E. A Europa demorou um pouco mais e pagou o preço. Em termos de ativos o SPX está o dobro do que estava antes da crise mas o índice europeu ainda está abaixo.
O que permitiu a reação dos ativos americanos, afora a política mais agressiva, foi a existência de ações de tecnologia, o que não havia na Europa e no Japão. Como o valor dessas empresas está quase que inteiramente em suas perpetuidades, elas são mais sensíveis à taxa de juros do que ao crescimento da economia, que no caso da americana foi bastante moderado no período.
Isso nos traz ao Brasil de 2019, que passou por uma crise brutal em 2015-16, com o desaparecimento de 7% do PIB, e passados 4 anos ainda não reencontrado. Houve um sucateamento da estrutura produtiva e um desemprego de 13% da população ativa. Foi um estouro da Bolha das Commodities que pegou o Brasil em cheio tal como o Japão em 1991 e os USA em 2008. Nosso Banco Central foi mais lento mas trouxe os juros de 15% para 5% em 4 anos, na linha do Japão mais do que dos Estados Unidos.
Assim como o Japão e a Europa, também seguimos a linha da austeridade, diferente dos USA, o que augura uma recuperação mais lenta olhando para os próximos 4 anos. Isso exclui qualquer tentativa de quantitative easing. Juros reais negativos ficam difíceis em uma economia emergente com situação fiscal periclitante e risco político elevado.
O que coloca nossos ativos (ações e imóveis) em uma clara situação de carros à frente dos bois. Se a economia doméstica não recuperar, o que parece ser o caso, e na falta de ações de tecnologia, eles podem perder fôlego rapidamente. O único milagre pode vir de fora, mas nesse exato momento um novo ciclo positivo para commodities parece pouco provável.


